George Jamil

Por: George Jamil

Realidade do irreal: a agregação de valor do intangível de novo em atenção

17/04/2025

A potencial descontinuidade de cadeias de produção e de agregação que observamos nestes dias nos traz de novo um incessante evento ocorrido nas últimas décadas: a servitização. Compreendemos este fenômeno quando nos referimos à mudança cultural ocorrida em que pensamos menos em ter produtos materiais e mais serviços, trocando a tradicional oferta do bem comprado e “levado para casa”, para nosso cotidiano, por um direito temporário de acesso e uso.

Durante algum tempo, evocando o caso de sucesso da empresa símbolo desta onda, chamamos o fato de “Uberização” econômica. O conceito, entretanto, expandiu-se. Na variação de modelos de negócios, como os SaaS, de demanda frequente (assinaturas) e de plataforma e suas variações, vemos o sucesso destas ofertas. Temos negociações que passam pelo clássico modelo de locação temporária, por novas formas de alocação dinâmicas e chegam ao simples uso eventual de propriedades de terceiros.

Esta onda de servitização agora é também confrontada pela possibilidade das ideias de apropriação nacional de produção, de certo isolacionismo econômico. É bastante fácil pensar que um modelo de smartphone ou de eletrônico doméstico seja fabricado com partes que vêm de vários cantos do mundo. Uma tarifa aqui, outra ali e temos uma nova - e provavelmente indesejável - composição de custos. Envolvida numa visão estratégica no mínimo discutível e aparentemente fora de tempo, do ponto de vista material, é possível de ser calculada e distinguida.

Mas e os serviços? Dinâmicos, de arranjo leve e rápido, movidos por dados, inteligência artificial e plataformas tecnológicas, os serviços ofertados via plataformas tecnológicas trazem a sua integração promovida lenta e robustamente, desafiando o um possível protecionismo. Se a plataforma reside num paraíso fiscal, de maneira transparente para os vários clientes espalhados ao redor do mundo, que se deslocam e se mantêm conectados à plataforma, buscando produtos e serviços em outros pontos, como isolar, dimensionar e “proteger”? Pense no marketplace que usa, cotidianamente, para adquirir seus produtos e serviços para sua casa, sua rotina diária: seguros, transporte, moradia, um sabonete, um pacote de biscoitos… cada um fornecido em um lugar, para ser usado em outro.

A servitização é um processo ainda de compreensão em andamento, embora tenha maturidade de negócios em tempo de vida. Por vezes acreditada como mera aplicação de tecnologia, chega a colocar em questionamento a perenidade de setores, determinando forças para suas mudanças. Podemos ver como a indústria automotiva, depois de encarar o desafio da servitização, assumiu a perspectiva como algo considerável. Automóveis novos e usados podem ser alugados, como bens de uso provisório, bem como as próprias indústrias, que reputavam que o uso compartilhado poderia ameaçar as novas vendas, terminaram por aderir a testes com plataformas tecnológicas.

Interessante notar que esta desmaterialização da oferta de valor se adiciona à perspectiva da desindustrialização, no que o Brasil percorreu um agressivo e gigantesco percurso nos últimos anos. Nosso mercado orientou-se rapidamente aos serviços, enquanto vemos a baixa evolução do parque industrial brasileiro, claro, com exceções exemplares, mas mesmo assim carecendo de sinais claros de avanço gerenciado e consistente.

Se, desde uma chave de fenda, passando por um automóvel, máquinas de construção civil geral e pesada e chegando até mesmo na aplicação de modelos modernos de equipamentos para diagnósticos de saúde, convivemos com atuais modelos de servitização, cabe questionar: até onde podemos chegar?

Neste momento, de pressões adicionais (e severas) por mudanças, temperamentos diversos colidem, provocando organizações de todo porte. A experiência ainda recente da servitização nos traz perspectivas de negociar valor material na forma intangível, uma aparente incoerência de modelagem de negócios. Longe disso, na atualidade, uma possibilidade de reação e resiliência competitiva. A pressão poderá derivar novas formas de servitizar ofertas, apoiando-se de maneira mais dinâmica, via dados e IA, nas negociações de usos de estruturas, ferramentas, produtos e dispositivos tecnológicos, afinal, os “materiais” clássicos.

Paradoxalmente, sendo otimista talvez ao extremo, a servitização poderá prescrever a provocação para desenvolvimento de modelos de negócios em que produtos - sim, produzidos com orientação inovadora e de contratação dinâmica - terão encontro com uma onda provocativa de sua inserção na economia.

O sucesso da servitização, da oferta imaterial pode, afinal, ser um sucesso também da indústria, via novos modelos de negócios ágeis. Que tal?

George Jamil, Belo Horizonte, setembro de 1959, Engenheiro Eletricista, Mestre em Ciência da Computação, Doutor em Ciência da Informação. Pós-doutorado pela Universidade do Porto em Inteligência de Mercado e na Universidad Politecnica de Cartagena, na Espanha, em Empreendedorismo. Consultor empresarial, professor e pesquisador para conhecimento aplicado em Estratégia, Marketing, Inovação e Transformação Digital. Autor e Editor de mais de trinta e cinco livros.
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