Michelle Uema

Por: Michelle Uema

Por que CX sem atrito não é um luxo, e sim uma estratégia?

07/07/2025

Por que remover atritos da jornada do cliente deve ser uma das agendas mais estratégicas das empresas digitais, e como muitas ainda erram nisso?

Muitas empresas investem milhões em personalização, automação, inteligência digital. Mas continuam perdendo clientes porque a jornada básica ainda cansa, confunde ou frustra.

Remover atritos não é um trabalho de UX, nem um projeto de atendimento. É uma disciplina estratégica, que exige liderança e visão de negócio. Quem não entende isso, perde clientes — e nem sempre percebe por quê.

Esse é um dos maiores pontos cegos que vejo hoje nas organizações. Há tempo e investimento para mapear comportamento, personalizar mensagens, criar jornadas omnichannel sofisticadas. Entretanto, fricções elementares — um fluxo de cadastro mal pensado, um onboarding confuso, um checkout truncado, um botão que não funciona no mobile — seguem eliminando valor de forma silenciosa. São obstáculos que reduzem conversão, alimentam churn e corroem NPS, mesmo em empresas digitais-first.

Mais grave: esses pequenos atritos muitas vezes não aparecem nos dashboards executivos. Podem até estar diluídos em métricas como conversão ou abandono de jornada, mas raramente são tratados como pauta estratégica. Boards discutem NPS, tempo de atendimento ou taxa de conversão. Mas esforço do cliente? Quase nunca.

O impacto real vai muito além do que se reconhece. Fricção destrói confiança, enfraquece a percepção de marca e compromete o valuation de negócios digitais. E não é um fenômeno apenas funcional — é profundamente emocional. Cada obstáculo ou etapa confusa gera frustração, insegurança e desgaste, moldando de forma silenciosa a decisão de permanecer ou abandonar uma marca.

Além disso, experiências com fricção desnecessária criam um ciclo vicioso: quanto maior o esforço, menor o engajamento; quanto menor o engajamento, mais transacional e vulnerável se torna a relação com a marca. É um impacto tão relevante quanto um aumento de CAC ou uma redução de LTV. E há um efeito adicional pouco discutido: experiências simplificadas reduzem custo operacional. Menos atrito significa menos contatos no suporte, menor retrabalho interno e fluxos mais eficientes — ganhos tangíveis de eficiência e margem.

Apesar disso, a abordagem ainda é fragmentada em muitas organizações. Times de produto corrigem fluxos isolados, squads de UX entregam telas mais limpas, mas a experiência emocional da jornada raramente é tratada de forma sistêmica. Boards monitoram NPS ou CSAT, mas não o esforço do cliente como variável de impacto estratégico. Simplificar a experiência, no entanto, gera ganhos concretos e mensuráveis em retenção, advocacy, resultado financeiro e eficiência.

Empresas líderes abordam o tema de forma mais madura. Mapeiam a jornada ponta a ponta, com foco explícito em eliminar fricções — não apenas em etapas transacionais, mas em toda a experiência emocional. Isso inclui pensar nos fluxos invisíveis (cadastro, onboarding, pós-venda), garantir consistência entre canais e, acima de tudo, entender como a experiência cumulativa molda a percepção da marca.

Elas tornam o esforço do cliente (Customer Effort Score) uma métrica estratégica, acompanhada em nível de Board e integrada aos indicadores de negócio. Sabem que reduzir esforço não é apenas um exercício de design. É uma alavanca de retenção, um fator de aumento de lifetime value e uma poderosa proteção contra churn — além de uma fonte relevante de ganho de eficiência.

Essas empresas tratam a voz do cliente como um ativo vivo. Não se limitam a medir NPS ou CSAT de forma periódica. Estabelecem escutas ativas e contínuas, usando insights qualitativos e quantitativos como insumo direto para priorização de roadmap e evolução constante da jornada.

E constroem uma cultura que não tolera atritos desnecessários. Simplicidade é um valor central da proposta de marca. Nessas organizações, não se discute “quanto esforço é aceitável”, mas sim “como garantir fluidez, consistência e confiança em cada interação”. E isso exige trabalho transversal: Marketing, Produto, Tecnologia, Operações e Atendimento precisam estar alinhados — com sponsorship direto do Board e do CEO.

Em empresas realmente maduras digitalmente, conselhos e CEOs cobram métricas de fricção, consistência entre canais e carga emocional da jornada. São organizações que entenderam que, em um cenário de competição cada vez mais acirrada e onde diferenciais de produto e preço se tornam menos sustentáveis, a experiência fluida é um dos principais vetores de retenção, lifetime value, eficiência e vantagem competitiva.

Quem trata essa agenda com seriedade constrói defensabilidade e relevância. Quem não trata, corre o risco real de perder clientes de forma silenciosa — e de ver seu valor de mercado erodir antes mesmo de perceber o porquê.

A provocação que deixo para a Rede: que atritos silenciosos sua empresa ainda impõe ao cliente? Quem no seu Board discute isso como pauta recorrente de negócio? Sua cultura reforça a busca constante por fluidez — ou tolera fricções “aceitáveis”? E se a principal alavanca de retenção, crescimento e eficiência não estiver no roadmap de features, mas na capacidade de entregar uma jornada sem obstáculos?

CX sem atrito não é luxo. É estratégia. E está na hora de tratá-la como tal.

Michelle Uema é uma executiva brasileira com mais de 17 anos de experiência, especializada em liderar transformações organizacionais em multinacionais e startups. Durante sua trajetória, teve uma experiência internacional de destaque no México, onde lidera a área de Customer Experience na multinacional americana SpotOn. Nesse período, conduziu uma transformação significativa que levou a empresa a ser premiada como “The Best Support Operations” nos Estados Unidos. Com uma carreira que inclui passagens por empresas como Sanofi, DSM, Uber, Mondelez, Philips e Whirlpool, Michelle é especialista em estratégias de crescimento, reestruturação e projetos de Go-to-Market no Brasil e América Latina. Seu histórico comprova sua habilidade em liderar equipes multifuncionais e implementar iniciativas que promovem crescimento sustentável, otimização de operações e criação de culturas organizacionais orientadas à inovação e alta performance. Atualmente, Michelle atua como mentora de organizações e altos executivos no Brasil e na América Latina, compartilhando sua expertise para impulsionar resultados estratégicos e fortalecer a excelência operacional e a experiência do cliente em contextos de alta complexidade.
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